Wednesday, October 11, 2017

Já ninguém escreve cartas de amor - A Portuguese love story - Only lovers left alive






Num qualquer hemisfério onde o tempo não passa de um lápis a escrevinhar um papel, vou-me lembrando de cartas de amor perdidas e esquecidas num qualquer armário.
- Já ninguém escreve cartas de amor.
 Dizes-me tu.
Eu fico um pouco perdido a vasculhar a nova tecnologia e a pensar que a extensão dos meus dedos não substituem o agarrar de um qualquer lápis ou caneta a desenhar palavras.
 Num qualquer espaço gélido perdido na Sibéria, escuto lobos a uivarem cantos de amor para as suas lobas.
 Vou pensando na busca de um livro e agarro-me a ele com força (como se tivesse a cumprir uma missão importante na minha alma), onde o paraíso e o inferno colidem.
 Fico parado a olhar para a tua silhueta que fica reflectida no gelo de uma região como a Sibéria, onde telefones ou novas tecnologias com vista à comunicação não existem.
 Mergulho num lago em busca de peixes para me alimentar e a água está gélida e o meu coração bate e bate e sinto-o quente enquanto continuo a vislumbrar a tua silhueta no gelo.
 As tuas formas cândidas fazem com que a temperatura aqueça um pouco a água que consome o meu corpo, saio da água com duas trutas ainda vivas e sem pensar muito ou reflectir demasiado no assunto, com duas pedras semelhantes a dois corações vou tentando fazer fogo para me alimentar.






 Tu dizes-me:
- Rapaz, olha o livro à tua frente, tens uma missão a cumprir.
 Eu vou lavando a alma e nutrindo o meu corpo com proteínas com o claro objectivo de sobreviver.
 Olho para a lua e ela está cheia e ao olhar para ela vislumbro o teu rosto doce e um sorriso matreiro que faz com que um qualquer esgar não seja traiçoeiro.
 Tu voltas a dizer-me:
- Parece que te conheço há anos e por vezes tenho a sensação que não te conheço, será o tempo e o espaço relativo?







 Eu tento entrar num racionalismo puro e duro como Gaston Bachelard me ensinou e na sua base, tentando conservar a minha existência com um sabor emocional.
 Volto a olhar para ti, enquanto as pedras não fazem fogo e tu silenciosamente falas-me de um comboio no qual devo ingressar para regressar para a minha terra.
 Eu fico a olhar novamente para o lago, está muito frio e tento agasalhar-me com umas meras peles de cordeiro que apanhei no chão, enquanto olho para o mesmo, noto a minha barba enorme e o meu cabelo despenteado e noto as brancas que aparecem no mesmo.
 Tu gritas para mim:
- Foge do gelo e volta para mim, não sejas uma pedra, ama uma chama.
Eu não sei o que te dizer pois o mero papel que escrevinhava serviu como isco para pescar as duas trutas que me vão alimentar.
 Tu continuas a gritar entre um sorriso e um mero beijo no ar:
- Precisas de músculo.
- Olha que te desmancham.
Eu fico impávido e sereno a contemplar o teu sorriso e os teus olhos que falam para mim e respondo-te:
- O poder do mundo sempre foi dominado pela mente e pelas palavras, nunca pelo músculo.
 Imagino-te a varrer o sítio onde vou dormir enquanto coloco sal nas trutas que apanhei para me nutrir, tendo em vista a minha existência.
 Tu dizes-me:
- Não és capaz de amar alguém?
Eu respondo-te:
- Já ninguém escreve cartas de amor, pois a imagem polvilha a mente do comum mortal.
Continuo a olhar para a lua e está uma noite cerrada e gélida e continuo a escutar o uivo dos lobos, vou imaginando os beijos que te dava ou o olhar com que me olhavas enquanto as pedras vão acendendo uma chama.
 Olho para o livro que trazia e está mesmo á minha frente enquanto coloco espetos para assar as trutas e vejo frases a gritarem dentro dele:
- Que fazes aqui?
- Diz-me quem amas e dir-te-ei quem és.
- Responde-me a meras perguntas de sim ou não, sem procurares uma escolha.
- Onde começa o Paraíso e acaba o inferno?
- Amo-te de uma forma desenfreada, mas será que sabes quem eu sou?
Novamente sem prestar a mínima atenção ás palavras, vejo uma qualquer árvore carregada de neve onde me encosto e um candeeiro a um quilómetro de distância com uma luz que me vai dando indicações acerca de um possível poiso ou de um sinal de civilização que ignoro e pretendo ignorar.
 Tu continuas a olhar para mim olhos nos olhos e dizes-me:
- Tu és um sonhador, um lutador, um ser utópico.
Eu sorrio novamente para a lagoa onde noto a tua silhueta e de 5 gatas que me fitam e ronroneiam para mim, enquanto vou pensando para mim mesmo:



Jacky, Maya e Nuala

Pimpolha

Ilvie


- Onde estais vós?
- Porque é que vos procuro quando busco meramente sobreviver?
Tu dizes-me de uma forma incessante:
- Não existe amor e uma cabana.
- Não existe amor e uma cabana.
- Não existe amor e uma cabana.
- Todos os escritores ficam perdidos entre a razão, emoção, estando constantemente divididos pelo coração que lhes foi arrancado por uma mera mão.


Cortazar



 Eu imagino a vida de outras pessoas, o inferno de estarem agarrados a um relógio ou o seu paraíso artificial quando acordam e vão para esse mesmo inferno nos seus carros, recolhidos nas suas casas com os seus aparatos electrónicos e digitais, constantemente a verem as horas que passam e passam, enquanto vou escrevendo com um ramo da árvore onde estou encostado estas palavras:
- O amor é um pedaço de alma e um coração que bate entre dois corpos que se assimilam.
 Passam pássaros por mim a voar e o barulho que fazem, deixam o meu coração a bater mais forte, escuto as palavras que eles me dizem:
- Que fazes aqui perdido nesta terra?
- Não procuras um carro ou uma casa?
- Não tens ambição em ser algo mais neste mundo?
Eu não os escuto e só penso no teu cabelo, nos teus lábios, nas 5 gatas que me rodeiam nos meus sonhos enquanto noto passos que me circulam e não sei de onde eles vêm, mas já nada me importa, pois numa qualquer carta de amor, o meu coração vai batendo e batendo num ritmo constante.
 Enquanto escuto os passos, só pergunto isto:
- Porque é que me tentaste matar sem dó nem piedade?
- Porque é que não tentaste vislumbrar aquele candeeiro com uma luz a piscar?

Um dizer



Tu dizes-me constantemente:
- Já não existem cartas de amor.
- Já não existem cartas de amor.
- Ninguém escreve cartas de amor.
- Ninguém escreve cartas de amor.
Eu olho novamente para ti e vejo-me focado no teu ser como uma âncora que me ajuda a suportar a direcção que quero tomar e não acredito nas tuas palavras.
 Por isso, te repito constantemente:
- O amor é um facto inegável.
- O amor é um facto inegável.
- O amor é um facto inegável.
- Imagens não substituem o amor.
- O amor não é uma nova tecnologia.
- O amor não é uma questão hormonal.
- O amor não é um qualquer meio de comunicação virtual ou real.
- O amor sente-se no espírito e na alma.
Tu continuas a repetir-me:
- Mas não existe amor e uma cabana.
- Não existe amor e uma cabana.
- Se te der um pouco de vinho, consegues olhar-me com outros olhos?
Eu não consigo responder-te, pois a tua silhueta é mais forte que o meu corpo físico, logo grito:
- O MEU ESPÍRITO E A MINHA ALMA, AMAM-TE.
- A AMIZADE É UM ESTRANHO TIPO DE AMOR.
Tu ficas a olhar-me e a observar-me e dizes-me:
- Quando encontrares uma serigaita qualquer deixas de me sussurrar aos ouvidos?
Eu imagino os teus olhos a percorrerem o meu corpo, enquanto um lobo me faz companhia numa noite fria e vou-te respondendo:
- Enquanto o meu cigarro não se apagar, irei sempre escrever algo para ti, num qualquer ramo perdido neste hemisfério.
 E vejo a tua silhueta a dançar comigo enquanto o lobo sorri para mim numa noite gélida onde o coração bate mais que a razão.
 Tu danças comigo e sussurras-me um segredo ao ouvido:
- Queres amar-me para sempre numa luz crescente?
Eu não sei o que te dizer, pois a luz do candeeiro vai ficando ténue e as minhas forças vão ficando gastas como uma qualquer pedra desgastada pelo tempo.
 No entanto, murmuro meras palavras para ti:
- Sei que num mero segundo és tudo para mim,.
- Sei que numa qualquer eternidade iras fazer parte da minha existência.
- Sei que enquanto viver, o meu coração e a minha mente não irão ser substituídos por uma mera Pen ligada a um PC ou um qualquer e-mail esquecido.



Uma parede


 Tu continuas a pensar e a dançar comigo enquanto varres o chão:
- Também sabes dançar?
- Também sabes cantar?
- Também sabes gritar?
- Ou será que vives sempre numa ilusão com uma luta com o teu coração?
Eu não penso no que dizes, pois sou guiado pela emoção e enquanto o meu corpo se vai perdendo numa busca de sobrevivência, busco a tua silhueta e uma das minhas gatas que sei que ainda está viva.
 O papel treme e treme enquanto escrevo algo sem razão, vindo da emoção e passando pelo coração.
 Volto a olhar para a lua e para o sol que está a aparecer e a dar-me luz enquanto vou comendo as trutas meio cruas que cozinhei e que vou dividindo com o lobo que está ao meu lado e quando dou por mim, a lua fica camuflada pelo sol e o sol por ela e sussurro-te algo sem tu te aperceberes enquanto estás perdida em tecnologias com o objectivo de teres algum tipo de trabalho ou no trânsito de uma qualquer sociedade:
- Tenho a certeza que ainda existe quem escreva cartas de amor.
- Tenho a certeza que ainda existe quem viva num mundo diferente deste que nos querem "vender", onde a emoção vence sempre a razão numa qualquer sociedade que dita as nossas leis e vai corrompendo o nosso espírito, a nossa alma e o nosso coração.
 Tu ficas a olhar para mim, para o lobo, para as peles que tapam o meu corpo numa noite gélida e perguntas-me:
- Mas o amor não é somente uma palavra?
- Mas a amizade não é somente um momento?
Eu volto a olhar para o lago e vejo trutas a nadarem vivas e a saltarem do mesmo enquanto vejo a tua silhueta e ao procurar a minha gata, digo-te com toda a crença do mundo:
- Tudo na vida tem de vir do coração sem qualquer tipo de ilusão.

Continua

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