Wednesday, October 11, 2017

Um mero rebuçado - A Portuguese love story - Only lovers left alive


Identidade por Ana Biscaia



A tinta sempre foi algo que entrou no meu sangue como um rebuçado que vai adoçando a minha boca após um cigarro.
 Num qualquer canto esquecido, procuro o miar da minha gata Viking enclausurada numa espiral de ódio.
 Ela vai olhando para mim e observa-me enquanto enrosca as suas patinhas no meu peito e diz-me:
- Procuras o sonho num sono qualquer onde elefantes cor de rosa te perseguem.
- Buscas o meu olhar ternurento enquanto as lágrimas te escorrem pela face.
- Não és um estranho para mim vindo de uma terra longínqua, sempre te irei amar enquanto viver.
 Vou percorrendo uma escada e observo duas meninas com 21 e 22 anos que me chamam de tio e eu fico estupefacto a olhar para elas, a interrogar-me do porquê de não as ter acompanhado desde pequenas, nesta mesma escada encontro quatro gatas que não estão perdidas na minha memória e que me vão dizendo:
- Deste-me um nome de um desenho animado que amavas quando eras criança, fui à tua primogénita, tu dizias que eu era branca e pura como a neve, lembraste de mim e de como eu te amava?
- Deste-me um nome de a guardiã dos sonhos quando me encontraste pequenina perdida em Lisboa toda malhada, recordas a ternura que tinha por ti quando me deitava nos teus ombros ou de quando me davas o biberão em bébé?
- Deste-me um nome de uma deusa da ilusão quando andava perdida na rua, será que recordas o meu cheiro e o meu olhar e todas as minhas cores?
- Deste-me um nome de algo frágil, pois fui a única sobrevivente de uma ninhada apesar de ser a mais pequena, num misto de preto e branco fui a tua estabilidade e recordo com amor a forma como me acariciavas.
 Eu continuo com o rebuçado na boca e nem sequer retiro o papel que o envolve e volto a observar tinta que escorre num qualquer papel como se a tivesse a beijar suavemente.
 Os elefantes cor de rosa perseguem-me como se fossem dragões a cuspirem fogo por todo o lado e eu busco um refugo num qualquer jacto de água.
 De repente aparece-me uma rapariga do nada que me diz:
- Venho de Milão, estou em Lisboa, posso ir ter contigo à mais bela cidade do mundo?
 Eu sem saber como ou porquê, respondo-lhe que sim e numa actividade louca mostro-lhe todo o esplendor da mesma.
 Ela fica cansada e agarra-se aos meus braços, aos meus cabelos num qualquer orgasmo encefálico e num momento, o tempo deixou de existir.
 Em volta de um fogão vou cozinhando alhos, cebolas, frango com imenso sal e continuo com o rebuçado na boca, desço para comprar tabaco num qualquer café boémio e outra bela rapariga diz-me:
- Lembraste de mim e de como gostava de ti na adolescência e dos teus mistérios?
Eu fico estupefacto e ainda com o rebuçado entre os dentes fico a falar com ela e após a conversa, recebo uma mensagem da ternura e amor/amizade nunca esquecidos após mais de 27 anos.
 A comida começa a esturricar e eu pego em garfos, facas e copos com água para aproveitar um belo pedaço de frango e o telemóvel volta a apitar com a seguinte mensagem de uma amiga querida:
- Vamos para os copos?
Retiro o rebuçado da boca e sinto o açúcar a percorrer a minha boca, língua e o meu sangue, enquanto vou saboreando o belo pedaço de frango para depois numa qualquer madrugada, perder-me em várias cervejas com bastante malte, queimando cigarro atrás de cigarro.
 Envio uma mensagem do meu telemóvel para outra pessoa para me ajudar a corroer o ódio e a raiva que alguém nutre por mim e obtenho o seu feedback, o cigarro vai-se queimando enquanto observo uma igreja românica na cidade do Porto.
 Escuto vozes de duas mulheres vindas do Báltico:


Báltico



- Lembraste de quando nos mostraste a alma da mais bela cidade do mundo ou de quando subíamos a monumentos abraçadas a ti e sem qualquer tipo de medo?
- Tu sabes que te sussurramos muitas vezes nos teus ouvidos quando escutávamos palavras da tua boca enquanto ias mascando rebuçados.
 Eu fico perdido no tempo e um pardal diz-me numa árvore junto á cordoaria:
- Tu vives numa utopia perdido em sonhos.
- Tu amas a tua cidade e as suas almas como poucos.
- Porque é que não és mais do que um mero cidadão desta terra que amas?
Eu respondo-lhe perdido na razão e na emoção:
- O meu pai é o rio que percorre esta terra e a minha mãe a sua ponte.
Viro uma esquina e de repente estou em frente ao tribunal e olho para a estátua da justiça na figura de uma mulher, que me vai dizendo:
- Recordaste das noites que passaste a contemplar-me nestas escadas enquanto a torre te observava?
 Eu continuo a ver os elefantes cor de rosa a tornarem-se em dragões que me aquecem com a sua chama enquanto busco leões em algumas paredes da Avenida dos Aliados e o Deus verde da floresta.
 De repente e enquanto olho para o céu vejo anjos a tomarem conta da cidade onde nasci que me dizem:
- Tu és um ser perdido e esquecido, mas a tua idade faz parte da nossa identidade.
 Sem pensar muito no que os anjos me dizem, busco Antas numa qualquer avenida sentado num café satélite enquanto como uma torrada e fumo um cigarro.
 Olho para a estrada e vejo isto escrito na rua:
- Se te sentires cansado, pensa um pouco, respira fundo e descansa.
 Desço a avenida vou para uma grande caixa onde encontro alguém sempre com um enorme sorriso que me abraça e me diz:
- Se o teu mundo é uma estrada, procura matar o ódio e amar com meras palavras como se de um mero rebuçado ainda envolto num papel se tratasse.
 Eu não sei o que dizer e busco papéis, cronologias de vida, o lado bom e o lado mau da mesma e sem sequer saber onde estou, tu vais-me dizendo:
- Queres uma boleia para uma qualquer estrada?
E nessa mesma boleia vais vociferando contra tudo e todos num círculo sem fim, onde a serpente continua a comer a sua própria cauda.
 Desço do carro, despeço-me de ti com ternura e vou meditando no sabor da cereja, das amendoeiras em flor ou de como as espigas eram rebuçados na minha infância sendo barradas com manteiga.
 Olho para o relógio, sinto-me aprisionado, imagino um manto protector nos meus ombros e sei que num qualquer sonho ou pesadelo, irei ver o início de uma qualquer relação emocional.
 Os elefantes cor de rosa continuam a perseguir-me enquanto a minha sobrinha mais nova me diz:
- Acorda tio, vou-te ganhar ao braço de ferro porque comi muito hoje.
 Eu sorrio para ela e vejo um novo futuro na minha estrada, uma qualquer luz acendida, uma janela entreaberta, enquanto noto o cheiro da vela que vai ardendo na minha casa e sem pensar em nada, todas as minhas recordações me inundam a mente e vou pensando para mim mesmo:
- Será que sozinho e com pouca ajuda consigo criar um império com meras palavras e um rebuçado sem papel a envolvê-lo?

Continua

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