Wednesday, October 11, 2017

Num copo com água - A Portuguese love story - Only lovers left alive




Dead can Dance "Towards the within"   



Muitas vezes fico a olhar abismado para um mero copo com água enquanto noto que a sua transparência opaca a realidade de um qualquer ser humano.
 Sem pensar muito, vou escutando uma música chamada "Rakim" dos Dead Can Dance, enquanto desço umas escadas na mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto e vejo três gatas a observarem-me enquanto vão dialogando comigo:


Maya e Pimpolha 

Nuala



- Que fazes perdido aqui?
- Já não nos conheces?
- Será que é o vento que faz com que por vezes pareça que irás voar?
 Sem caneta...
 Sem lápis...
 Sem borracha...

De repente olho novamente para as três gatas enquanto elas vão subindo caleiras em plena rua de Sá da Bandeira e fico confuso sem saber se elas falaram comigo ou se tudo não foi uma questão de imaginação ou interpretação.
 Alguém me grita estando fisicamente noutra cidade:
 - ONDE ESTÁS?
 - QUE FAZES?
 - PORQUE É QUE ME ESCREVES?

Eu fico quieto, estático e imóvel, imaginando uma qualquer dança enquanto vou olhando  atentamente para um buraco na parede junto à Sé na majestosa Catedral do Porto e retiro de lá um papel com esta frase escrita:

Na Sé



- Posso ser um mero origami na tua vida?
Fico novamente confuso e guardo o papel na minha carteira.
- Fala comigo..
- Escreve-me..
- Comunica comigo com o coração e a alma.

Tu vais me dizendo isto na minha mente, enquanto continuo a caminhar junto ás muralhas Fernandinas onde 3 crianças me perguntam isto:
- Queres visitar a Lua comigo?
- Gostarias de jogar futebol comigo?
- Podes fazer jogos de palavras comigo?

Mais uma vez e perdido num mero copo com água e sem um sorriso, vou observando os olhos das crianças e penso que aquelas frases poderão ser produto da minha fértil imaginação.
 Escuto a tua voz na minha cabeça:


Um dragão


- Sê um Dragão.
- Imagina uma dança...
- Sente o teu coração.

Vou agindo por instinto ao recolher meros grãos de areia com ambas as minhas mãos, tentando construir castelos no ar.
 Oiço espíritos da terra, da água, do fogo e do ar a entrarem na areia que vou segurando.
 Tu vais-me dizendo:
- Entra no conceito metafísico da ciência.
- Divaga sobre o racionalismo puro.
- Manipula o tempo sem um lamento.

Somente com quatro dedos vou tentando entrar num estado de transe absoluto a nível emocional e espiritual.
 Na avenida dos aliados quase sou atropelado enquanto motoristas me vão dizendo:
- Sai da frente, seu lunático.
- Que estás a fazer aqui, carago?
- Precisas de dinheiro para a sopa, é isso?

Eu vou imaginando o teu retrato sem um dispositivo digital enquanto penso que até os mortos podem dançar.
 Não penso...
 Não medito...
 Não grito...
Somente volto a escutar-te:


Twin Peaks



- Porque falavas ontem de 25 anos?
- O que seremos daqui a 25 anos?
- O que é que fizemos em 25 anos?
- Mas afinal, quem somos nós?

Eu penso sempre numa questão de identidade onde a cidade do Porto não tem idade.
Passam quatro pardais enquanto vou subindo a avenida da Boavista e eu vou escutando-os:
- Tu és daqui...
- Tu vives ali...
- Tu cantas por aí..
- Por vezes andas perdido...

Olho para um restaurante e vejo lenha a aquecer umas meras tripas com arroz.
Não penso...
Não sinto...
Não sou...
Volto a escutar algo que me dizes através duma voz na minha cabeça:
- Será que irás dançar hoje á noite até ficares sem ar?
- Será que irás escutar os murmúrios que tenho para te dar?
- Onde está o teu presente?
- Onde é o teu futuro?
- Qual foi o teu passado?

Sem pensar, escuto o tema "Cantara" dos Dead Can Dance enquanto imagino que esta voz que está alojada na minha cabeça, irá num qualquer dia me trazer um simples cigarro ou uma mera cerveja, enquanto perdidos num qualquer mundo de fantasia, fomos, estamos ou vamos dizendo isto um ao outro numa frase que parece quase com um círculo fechado.
- Queres percorrer o coração da cidade do Porto de lés a lés comigo com alegria?

                           


Continua 

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